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Como fazer um texto objetivo, que seja atraente, exponha o seu histórico, mostre seus resultados e revele um pouco da sua personalidade? Eis aqui um roteiro completo para você chegar lá.
Por Márcia Rocha*
Você caprichou no seu currículo, colocou tudo o que acha que deveria e vai enviá-lo, digamos, a um headhunter. Ou a um diretor de RH. Ou simplesmente ao departamento de seleção de alguma empresa. Tudo bem, mas, responda uma coisa: você faz idéia do espaço de texto e de tempo que tem para chamar a atenção da pessoa que vai ler o seu currículo? Duas páginas e 40 segundos. Só. Mais nada. Você sabe exatamente o que significa "chamar a atenção" da pessoa que vai ler o seu currículo? Deixá-la com vontade de ler até o fim - e curiosa para conhecê-lo pessoalmente.
Diante disso, antes de começar a descrever os cargos que teve, as coisas que fez e as empresas por onde passou, coloque-se no lugar de quem vai ler o seu currículo. E, quando estiver com ele pronto, coloque-se de novo no lugar de quem vai lê-lo. Está atraente? Objetivo e claro? Bem escrito, com um texto elegante? Tem informações interessantes? Expõe os resultados que você conseguiu para as empresas por onde passou? Mostra um pouco do seu modo de ser? Está, enfim, à altura do profissional que você é?
Não é novidade para ninguém que a concorrência por uma boa colocação no mercado de trabalho não pára de crescer. E é óbvio que, toda vez que a oferta é grande e a demanda nem tanto, só os feras conseguem passar pelo funil. Em outras palavras, só quem realmente tem o que dizer, e ainda por cima for convincente, é que tem alguma chance hoje em dia. Vamos aos números:
No BankBoston, que tem
4 000 funcionários, chegam cerca de 200 currículos por dia pelo
correio. "Desses, apenas uns 50 vão para o banco de dados",
diz Denise Asnis, diretora adjunta de recursos humanos do banco. Pela Internet
chegam outros 1 000, 1 200 currículos diariamente. Somente uns 300 são
arquivados.
A Microsoft recebe semanalmente 1 100 currículos online. Pelo
correio chegam mais 200. Detalhe: a empresa tem apenas 250 funcionários
no Brasil. Em seu banco de dados há, atualmente, perto de 60 000 currículos
(que uma vez por ano são deletados automaticamente).
No grupo Accor, só no ano passado, chegaram 63 500 currículos,
ou seja, o triplo do número de pessoas que trabalham na empresa.
O escritório brasileiro da Korn/Ferry International, uma das maiores
empresas de busca de executivos do mundo, recebe todos os dias de 100 a 150
currículo, em média.
A briga, como se vê, está para gente forte. A questão principal aqui é que poucas pessoas sabem fazer um currículo bem feito. Na verdade, segundo os headhunters, só uma minoria sabe. Eles são unânimes em dizer que é espantosa a quantidade de currículos ruins que lhes chega às mãos todos os dias. E não se trata do escalão de baixo, não. Há centenas e centenas de currículos vergonhosos de diretores de empresas. Não condizem com seu nível social, com a experiência que têm e muito menos com o cargo que ocupam. O pior é que os diretores em geral são os profissionais de marketing. Dá para contratar alguém que tenha por ofício vender a empresa, suas marcas e produtos e que, no entanto, não seja capaz de vender nem a si próprio num pedaço de papel? O resultado é que um número enorme de bons profissionais perde ótimas oportunidades de trabalho pelo simples fato de ter um currículo malfeito.
Mas será que é assim tão complicado confeccionar um currículo direito? A resposta é sim. Claro que a tarefa não se compara a resolver um teorema de Pitágoras. Mas exige concentração, reflexão, tempo, poder de síntese, bom texto e, sobretudo, uma compreensão verdadeira do que é importante ressaltar. A VOCÊ s.a. fez um levantamento minucioso de tudo o que deve ter - e também o que não pode conter - um currículo para ser considerado muito bem-feito. Merecer nota 10. Ganhar de lavada dos outros. Ouvimos cerca de 20 profissionais e chegamos a 25 itens práticos e indispensáveis. Leia-os com atenção e nunca se desfaça desta revista, pois, se Deus quiser (e seu currículo ficar bom mesmo), você terá que atualizá-lo muitas vezes na vida.
1. Diga quem
você é
É exatamente aqui que começam os erros: nos dados pessoais. Escreva
no alto da página seu nome completo, endereço (também completo),
telefone, celular, e-mail, nacionalidade, idade, estado civil e número
de filhos. E mais nada. Em relação aos três últimos
itens há uma controvérsia - alguns consultores acham que devem
ir no fim do currículo; outros, no começo. Faça como quiser,
porque não muda nada.
Não se sabe por que algumas pessoas insistem em mencionar o número do RG, do CPF, da carteira profissional, do título de eleitor, do atestado de reservista... Para quê? Antes de escrever qualquer coisa, faça sempre esta pergunta a si mesmo: para que vou pôr isso? O currículo não é um contrato, em que os documentos e mais um monte de outras coisas precisam ser relacionados. O currículo é apenas um papel com o seu histórico profissional, que serve para quem vai lê-lo decidir se vale ou não a pena conhecer você pessoalmente.
2. Como definir
seu objetivo
O que você quer tem que estar logo depois dos dados pessoais. É
hora de deixar claro seu objetivo, o cargo, ou os cargos, e a área (ou
áreas) que você pretende. Como dizer isso sem enrolar? Veja o exemplo:
"Posição de diretoria nas áreas de logística, supply chain ou comercial"
Ao contrário dos profissionais experientes, quem está entrando no mercado deve explicar como quer direcionar sua carreira e por que escolheu aquela profissão. Segundo Claudio Neszlinger, diretor de recursos humanos da Microsoft, o texto pode seguir mais ou menos este raciocínio: "Quero agregar conceitos de marketing à minha formação técnica porque acho que assim vou me desenvolver profissionalmente".
3. Não seja um franco-atirador
Antes de mandar seu currículo para qualquer empresa, decida o que gostaria
de ser e em que área desejaria atuar. Você pode até querer
ser duas coisas, como gerente de marketing ou de recursos humanos. Mas ninguém
normal quer ser dez coisas diferentes. Veja o exemplo que NÃO deve ser
seguido:
"Atuar na área de recursos humanos, em todos os setores de cargos e salários, recrutamento e seleção de pessoal, área financeira (faturamento, agenda de pagamentos, composição bancária...), área de produção (desenvolvimento de projetos, controle de qualidade, controle de estoque...), área de marketing (viabilização de novos projetos, acompanhamento de campanha, estudo de mercado...) etc."
Seja honesto: você daria um emprego para um mentecapto desses???
4. Não
embrulhe para presente
Colocar capas ou guardar o currículo dentro de pastas é puro desperdício
de dinheiro. "Eliminamos tudo ao inserir o documento no banco de dados.
Só aproveitamos o texto", diz Zoila Mendes Pinto, headhunter da
SpencerStuart. O currículo não precisa ser uma obra de arte. Basta
ser bom. Até porque a preocupação excessiva com a estética
pode dar a impressão de que o candidato está "dourando a
pílula" para disfarçar alguma falha. Portanto, basta utilizar
folhas brancas (limpas) e grampeadas.
5. Tamanho
não é documento
Quer fazer um grande favor para a pessoa que vai ler o seu currículo?
Não a canse com páginas e páginas contando todos os pormenores
dos seus grandes feitos. Use frases curtas e evite ao máximo passar de
duas páginas. Vá lá, três é o limite, mas
somente se você for um veterano. Caso seja muuuuito experiente e seus
conhecimentos exijam mais espaço, faça um outro currículo
com algumas páginas extras e segure-o com você. Mas você
deve mostrá-lo apenas se for chamado para uma entrevista.
Pessoas com pouca experiência profissional não têm desculpa para passar de uma página. "Mais que isso vira enrolação", diz Claudio Neszlinger.
6. O seu tipo
ideal
Alto, moreno, bonito... Epa, o assunto aqui é trabalho - estamos falando
de ti-po-lo-gia. Fique com as mais simples - como a Courier, a Arial ou a Times
New Roman. Elas facilitam a leitura. Também não tente aquele truque
mais do que conhecido de diminuir o tamanho da letra para reduzir o número
de páginas. "Letras miúdas demais dificultam o trabalho do
avaliador e tiram a vontade de ler", diz Yonara Costa, da Simon Franco
e Opportunity Consultoria. Qual o corpo ideal? Qualquer um entre 11 e 14.
E atenção: não abuse dos negritos, itálicos e palavras sublinhadas. Esses recursos só devem ser usados para organizar os dados.
7. Fale do que é capaz
Podemos dizer que o resumo profissional, o próximo item da lista, é
o coração do seu currículo. É aqui que você
vai apresentar uma síntese das competências que desenvolveu ao
longo da carreira. E precisa entrar antes de citar as empresas em que trabalhou,
porque este é o momento em que a pessoa que está lendo vai desistir
ou ir em frente. Essa parte é a mais difícil, porque você
vai ter que ser breve e, ao mesmo tempo, discorrer sobre as suas habilidades.
Para facilitar, faça o texto em itens, como este engenheiro mecânico
que está se candidatando a uma vaga gerencial:
Sólida experiência
em uma série de funções nas áreas de vendas, manufatura,
engenharia, gerência de projetos, relações governamentais,
marketing, gerência de produtos, planejamento estratégico e gerência
geral de unidades de negócios.
Dez anos de experiência internacional nos Estados Unidos e na América
do Sul.
Capacidade de liderança, habilidades de negociação
e comunicação, adaptabilidade a novas funções e
novos ambientes, coragem e determinação para mudar paradigmas
e visão estratégica de diferentes segmentos de negócios
tanto no Brasil quanto no exterior.
Se você está começando sua carreira, ainda não tem muito o que contar sobre sua experiência profissional. Então, vá direto para sua formação acadêmica.
8. Por onde
você passou?
Mencione somente as últimas cinco empresas em que trabalhou, em ordem
cronológica decrescente. Gutemberg Macedo, diretor da Gutemberg Consultores,
empresa de recolocação de executivos, aconselha escrever os dados
da sua experiência profissional na seguinte seqüência: nome
da empresa - se ela não for conhecida, descreva rapidamente seu ramo
de atividade, sua posição no mercado, seu faturamento e seu tamanho
em número de funcionários (a idéia é mostrar seu
porte); cidade e, se for o caso, o país em que ela se localiza; a posição
que você ocupava; e, finalmente, o mês e o ano da sua contratação
e saída. "É importante mencionar isso para que o empregador
saiba se você passou algum período sem trabalhar", diz Gutemberg.
Não se limite a dizer qual era o seu cargo. Muito mais importante que ele é contar o que fez na prática. É isso o que vai fazer a diferença - e é justamente esse um erro que grande parte das pessoas comete. Não adianta escrever: administrador financeiro, responsável pelas finanças da empresa. "É óbvio que um jogador de futebol joga futebol", diz o headhunter Robert Wong, da Korn/Ferry International. "O que quero saber é se ele foi capitão do time, se nunca recebeu um cartão vermelho e outras coisas desse tipo." Enumere as responsabilidades que tinha quando ocupou aquele cargo e os resultados que obteve. Sempre que possível, diga quanto a empresa lucrou com as suas ações. Veja como um gerente comercial descreveu as suas atribuições e realizações e siga seu exemplo:
"Gerente Comercial Divisão
Laminados
Fui o responsável por vendas, marketing, exportação,
importação, desenvolvimento de produtos e mercados e serviço
de atendimento ao cliente. Vendas em 1999: US$ 84 milhões.
Elevei a participação de mercado no segmento de rodas de
alumínio para caminhões de 5% para 95% em cinco anos, qualificando
a Roda XYZ como padrão no modelo 1938 pesados Mercedes-Benz. O volume
de vendas de 40 000 rodas em 1999 justificou a aprovação de um
investimento de US$ 6 milhões para sua fabricação no Brasil."
Se você fosse um médico, poderia descrever suas realizações desta maneira:
"Implementei, juntamente
com minha equipe, um programa de combate à febre amarela que resultou
na redução de US$ 5 milhões nas despesas públicas
com saúde.
Dirigi o Hospital XYZ durante oito anos e reverti seu delicado quadro
financeiro por meio de parcerias com a iniciativa privada.
Operei, nos últimos 12 meses, 80 pacientes com problemas cardiovasculares,
obtendo 100% de sucesso nessas intervenções."
Naturalmente, não há apenas uma maneira de falar sobre a sua carreira. Vicky Bloch, diretora da DBM, outra empresa de outplacement, sugere que você relacione suas competências com os resultados que obteve nas empresas onde trabalhou. O padrão sugerido pela consultora foi adotado por este profissional, que deseja ser o diretor industrial de uma empresa:
"Competência
Capacidade de implementação de políticas e procedimentos,
evitando processos para a organização.
Principais Realizações
Implementei políticas e procedimentos internos para aprovação
pelo departamento jurídico envolvendo contratos, embalagens e rótulos,
comerciais em TV, rádio e revistas, procurações e serviço
de atendimento ao consumidor. Por causa dessa atuação preventiva,
evitamos problemas com o consumidor como, por exemplo, um recall."
9. Um currículo
só não basta
Se há uma coisa que pode adiantar o expediente é fazer um currículo
especial para cada empresa que você tenha em vista. É claro que
antes você precisa saber em quais empresas gostaria de trabalhar - e não
importa se há vagas ou não (qualquer empresa inteligente tem lugar
para pessoas talentosas). A partir daí, terá que descobrir tudo
o que puder sobre a companhia, sobretudo os problemas para os quais você
tem solução. Internet, jornais, revistas e conversas com funcionários
são fontes valiosas de informação. Essa é a única
maneira de não gastar munição à toa. "Uma vez
recebemos o currículo de um físico nuclear", lembra José
Luiz Ferreira Gomes, consultor interno de recursos humanos da Copesul. Detalhe:
a Copesul é uma companhia petroquímica e não tem espaço
para esse tipo de profissional. Em outras palavras, tempo perdido para o candidato
e para a empresa.
10. Seu diploma
tem grife?
Não adianta negar: além da experiência profissional, a formação
acadêmica pesa muito na hora do empregador se decidir por um candidato.
É consenso entre os especialistas em carreira que quem não se
graduou em uma universidade conhecida deve "reparar" essa falta fazendo
uma pós-graduação numa instituição de renome.
Não estamos querendo dizer que sem um diploma de primeira linha a pessoa
não tenha chances de entrar e crescer numa boa empresa. Claro que o desenvolvimento
depende muito mais dela mesma do que das escolas por onde passou. A questão
aqui é: o que você tem a oferecer para a empresa? Ela quer alguém
que já tenha provado que deu resultados em outras companhias (e para
isso o profissional não poderá ser jovenzinho) ou alguém
que tenha estudado numa instituição respeitada - porque, teoricamente,
desses lugares saem pessoas com mais potencial.
Nunca se iluda quanto ao objetivo das empresas: elas querem gente talentosa, capaz de dar resultados. Isso é o que mais importa para elas. Se a pessoa está entrando no mercado e não tem como provar que é boa, passará pelo funil com muito mais facilidade se tiver um diploma de nome, falar inglês fluentemente, tiver estudado no exterior e coisas assim. Se já tem feitos que fazem os olhos brilhar, basta se manter atualizada.
Fale sobre sua formação acadêmica começando sempre pelo curso mais recente, com ano de início e de término. Basta relacionar o curso de graduação e pós-graduação (é ridículo colocar pré-primário, ginásio, primeiro grau etc.). Se você estiver pleiteando um estágio, terá mais uma razão para começar dizendo onde fez, ou está fazendo, a faculdade.
11. Nada de
cursos relâmpagos
Só coloque os cursos complementares que fizeram você desenvolver
alguma habilidade interessante para a empresa onde quer trabalhar. Aqueles seminários
de uma tarde sobre relações humanas no trabalho definitivamente
não interessam a ninguém.
12. Qual é
sua língua
Em matéria de idiomas não existe meio termo. "Ou você
é fluente ou não é", diz a headhunter Yonara Costa.
Para evitar constrangimentos na hora da entrevista (sim, seus conhecimentos
serão testados cara a cara), ela aconselha o candidato a subavaliar seu
conhecimento de línguas estrangeiras. Ou seja, é melhor dizer
que do francês você só sabe o básico do que afirmar
que se vira muito bem - ainda que se vire razoavelmente bem. Ao contrário
da faculdade, o nome da escola (ou escolas) onde você aprendeu inglês,
alemão, espanhol ou seja lá o que for não importa a mínima.
A não ser que tenha aprendido morando no exterior - aí, claro
que tem que dizer.
13. Conte sua
vida lá fora
O relato das suas experiências internacionais pode ser um item à
parte ou distribuído ao longo do currículo. Atenção:
viagem de férias para Cancún não é sinônimo
de experiência internacional. Estamos falando de trabalhar e morar fora
do país. Os candidatos a trainee que tiverem feito intercâmbio
ganham pontos. Se tiverem trabalhado entregando pizza, limpando piscinas ou
servindo em lanchonete, melhor ainda. Todas essas experiências dão
à pessoa jogo de cintura e, de qualquer forma, aumentam a rede de relacionamentos.
14. Muito além
do trabalho
Não há uma regra quando o assunto é listar, ou não,
os seus hobbies e atividades fora do horário comercial (eles entram no
item "informações adicionais"). Alguns consultores são
de opinião de que escrever que você gosta de jogar tênis,
que é um pé-de-valsa e tem prazer em ser o síndico do prédio
é bobagem. Essas coisas devem ser deixadas para a entrevista. Mas não
dê ouvidos a eles se a sua intuição disser o contrário,
porque um determinado detalhe pode acabar sendo o diferencial decisivo. Quer
ver?
Certa vez, Robert Wong foi contratado para procurar um diretor de recursos humanos para uma empresa em Brasília. Ele selecionou cinco candidatos, todos na faixa dos 45 anos, como queria o cliente. Apenas um tinha mais de 50. "Era um profissional muito competente. Achei que valia a pena tentar", diz Wong. Adivinhe quem foi o escolhido? Justamente o mais velho. E sabe por quê? "Meu cliente se encantou com o fato de o candidato ter dito em seu currículo que era um exímio preparador de churrasco. Ele também tinha esse hobby", diz Wong. É claro que ninguém é selecionado por adorar fazer churrasco ou ser campeão de natação. Mas isso pode ser uma pista sobre a personalidade da pessoa. Reunir os amigos para preparar um churrasco não deixa de ser um sinal de liderança, qualidade interessante para um diretor de recursos humanos.
Para os meninos e meninas que estão disputando um estágio, o item "informações adicionais" é a grande chance de chamar a atenção do empregador. "Não tenho vontade de entrevistar um jovem que não pratique esportes e nunca tenha feito um trabalho voluntário, diz Luiz Edmundo Prestes Rosa, diretor de recursos humanos do Grupo Accor. "Essas são realizações importantes na vida de um adolescente."
15. Não
minta jamais
Não diga que estudou em Harvard ou na Sorbonne se isso não for
verdade. A headhunter Zoila lembra de um candidato que já estava nas
entrevistas finais e mudava de assunto quando a conversa se encaminhava para
o curso de administração que ele dizia ter feito na Fundação
Getúlio Vargas. "Como não encontrava seu nome na lista de
formandos, perguntei o que estava acontecendo. Ele confessou que não
tinha terminado o curso", diz. Foi cortado na hora!
16. E omitir,
pode?
A omissão não é considerada exatamente uma falta grave,
afinal, o currículo deve trabalhar a seu favor, e não contra.
Confessar algum erro logo de cara pode não ser uma boa tática.
"Mas tem que dizer a verdade na entrevista", diz Prestes Rosa. Transparência
é uma qualidade supervalorizada no mundo corporativo (ao menos na hora
de entrar na empresa). Vamos aos exemplos: você pode omitir que não
terminou a faculdade ou a pós-graduação - mas não
pode escrever o ano em o curso terminou como se tivesse ido até o fim.
Não precisa dizer a sua idade - mas não pode baixá-la cinco
anos. Pode não revelar que a sua experiência maior é em
marketing quando o que você quer é mudar para a área de
finanças - mas não pode dizer que é um expert em finanças.
17. Você quer mudar de
área
Isso costuma ser um problema para muitos profissionais, porque ao mesmo tempo
em que eles querem ir para uma área que pouco conhecem, as empresas preferem
que eles trabalhem naquilo que dominam. Mudar de área sem mudar de emprego
é mais fácil - as empresas modernas incentivam o job rotation.
Mas para mudar também de empresa a condição básica
é ter as qualificações necessárias para atuar naquilo
que deseja. Se for o seu caso, selecione no currículo as competências
que julgar úteis para a nova atividade. Veja o exemplo do profissional
que trabalha na área administrativa e quer passar para a comercial:
Competências:
Visão integrada dos processos componentes do negócio
Conhecimento prático e teórico de análises de informações
de mercado
Análise econômica e financeira associada a desenvolvimento
de parcerias e produtos
Gerenciamento de equipes centrado em desempenho, amadurecimento e compreensão
do negócio
Se, no entanto, o candidato ainda não está preparado para mudar o rumo de sua carreira, deve se acostumar com a idéia de ganhar menos e ter uma posição menor durante algum tempo. "Não adianta achar que um cardiologista famoso vai se tornar um dentista conhecido da noite para o dia", diz Claudio Neszlinger. "É preciso se preparar para a mudança."
18. Às
vezes, em inglês também
O.k., hoje o domínio de línguas estrangeiras, principalmente do
inglês e do espanhol, é fundamental. Mas cometer erros de português,
falando ou, pior, escrevendo, pega muito, muito mal. Talvez até pior
do que não falar outro idioma. Escrever em bom português, porém,
não se resume a não cometer erros gramaticais. Mesmo sendo o assunto
pouco inspirador, o texto tem que ser elegante, instigante, gostoso de ler.
Um bom professor de português ou revisor resolve os erros de gramática.
A solução para o texto atraente e saboroso é pedir ajuda
a um jornalista (mas tem que ser dos bons, como os daqui da VOCÊ s.a.).
Se você vai mandar seu currículo para uma companhia estrangeira, prepare uma segunda versão na língua oficial da empresa. Dependendo do caso, essa pode ser a única versão. Mas cuidado ao traduzir o seu currículo para outro idioma. Cada um possui estilos e expressões que só quem o conhece bem sabe utilizar. Não hesite em pedir ajuda especializada para essa questão.
E, já que o assunto é não cometer erros, não gaste seu latim à toa. Em vez de curriculum, prefira "currículo". Até porque, se for necessário dizer, você dificilmente vai acertar o plural de curriculum. É curricula, sabia?
19. Apresente-se
ao seu chefe
A carta de apresentação personaliza o currículo e serve
para esclarecer logo de cara se você é, ou não, uma das
pessoas certas para aquele cargo. Prepare-se para escrever diferentes tipos
de cartas de apresentação. Se você souber, por exemplo,
o nome e cargo da pessoa que você gostaria que fosse o seu futuro chefe,
encaminhe seu currículo diretamente a ela. É muito mais simpático
e objetivo. Acrescente alguns dados sobre a empresa que sejam importantes para
embasar seus argumentos (faça uma pesquisa antes e descubra tudo o que
puder) e terá atenção dobrada.
Se for mandar o currículo para uma consultoria de headhunting, enderece a carta à empresa ou a um de seus consultores. Para ser eficiente, uma carta de apresentação precisa responder a três perguntas básicas: quem sou, o que quero e o que realizei na carreira. Tudo isso em, no máximo, 20 linhas - e terminando com um pedido para ser entrevistado. Veja como este candidato conseguiu enumerar as qualidades que tem para ser o diretor de recursos humanos:
"No atual palco de uma economia globalizada, a empresa moderna trava uma guerra em duas frentes: na primeira, a conquista de profissionais de primeira classe; na segunda, a fomentação de um ambiente que favoreça a permanência desses mesmos profissionais na organização.
Nessa guerra, o papel do gestor de recursos humanos é fundamental, visto que, uma vez sintonizado com as leis de mercado, irá usá-las em benefício de sua organização.
Durante os últimos anos, como Diretor Adjunto de Recursos Humanos do Grupo XYZ, tive a oportunidade de liderar uma equipe coesa e vencedora. É essa experiência que gostaria de colocar à disposição de V. Sa.
Nesse sentido, submeto a sua apreciação o meu currículo, que descreve de forma sumarizada meu nível de competência profissional.
Aguardo com interesse a oportunidade de uma entrevista pessoal, ocasião na qual descreverei os motivos pelos quais gostaria de trabalhar na sua organização. Peço a gentileza de contatar-me pelos telefones..."
Se você achou essa muito empolada, veja esta outra:
"Sou um executivo canadense com residência permanente no Brasil e carreira desenvolvida nas empresas ABC, DEF e GHI.
Meu objetivo é uma posição de direção na área comercial (marketing e vendas), ou de gestor numa start-up.
Ocupei cargos gerenciais nas áreas comercial, industrial e de exportação. Tenho forte vivência internacional nos Estados Unidos e na América Latina.
Anexo o meu currículo para a sua apreciação..."
20. Use palavras-chave
"Candidatar-se a uma vaga é exatamente como vender um produto",
diz Robert Wong. Uma boa tática para estimular o leitor do seu currículo
é usar verbos como realizar (um projeto), organizar (uma equipe), implantar
(um novo processo), conseguir, atingir (metas ou resultados), motivar (pessoas),
delegar (tarefas), criar e executar (soluções). Eles dão
a idéia de uma pessoa superativa e realizadora.
Outra questão importante é a maneira como você vai falar de você mesmo. Só há duas possibilidades aceitáveis: usando o verbo na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito ("Implantei um sistema de cobrança automática que resultou na economia de 10% dos recursos utilizados para esse fim") ou apelando para os substantivos ("Implantação de um sistema de cobrança automática..."). Nunca faça como o Pelé, que fala de si próprio na terceira pessoa do singular, como se se tratasse de alguma entidade, e não dele mesmo. Isso é errado e pedante. Assim, em vez de dizer "implantou um sistema de cobrança automática...", diga "eu implantei....", ou "liderei a equipe que implantou...", ou ainda "integrei a equipe que implantou..."
21. Não
fale sobre salário
Atenção: currículo não serve para fechar negócio,
e sim para você ser chamado para a primeira entrevista (se conseguir impressionar).
Por isso, nunca se refira ao pacote de remuneração da empresa
anterior ou mencione suas aspirações financeiras atuais. "Esse
assunto só deve ser tratado no dia da entrevista", afirma Gutemberg
Macedo.
22. É
brega mandar uma foto?
É meio estranho, sim (a não ser que você esteja de olho
na Kodak, onde os cartões de visita têm a foto do funcionário).
Apesar de um dos maiores problemas dos headhunters ser conseguir, alguns dias
depois do primeiro encontro, lembrar do rosto do candidato, não convém
já anexar uma foto ao currículo. Pode parecer exibicionismo. Em
resumo: os brasileiros não estão acostumados com isso. Por outro
lado, é conveniente levar uma fotografia (de preferência de terno)
no dia da entrevista e perguntar se é o caso de colocá-la no seu
dossiê. Isso certamente vai poupar trabalho aos headhunters que têm
por hábito fotografar a pessoa logo depois da entrevista.
23. Por correio ou por e-mail?
Eis outra dúvida também recorrente: mandar o currículo
por e-mail pega mal? Nem um pouco... mas pode causar problemas. O ideal seria
que todas as empresas - a exemplo da Microsoft, do BankBoston e do Grupo Accor
- tivessem em seus respectivos sites um questionário que faz as vezes
de um currículo. A pessoa preenche os espaços em branco e o sistema
manda a ficha direto para o banco de dados. Ou seja, é fácil para
a empresa e mais ainda para o candidato. "Quando temos urgência,
checamos diariamente a entrada de novos questionários", diz Neszlinger,
da Microsoft. Outra vantagem desse sistema: fica mais fácil procurar
um candidato pelos questionários, porque cada campo pode ser usado como
item de busca, o que não acontece com os currículos que estão
no papel ou fora desse padrão.
Se a empresa não tem o questionário online, a segunda alternativa pode ser o correio ou o e-mail. Não há um consenso sobre qual é melhor. Alguns consultores sugerem mandar o currículo como um documento anexo (torça para que consigam abri-lo). Outros se recusam a abrir documentos anexos com medo de vírus e preferem que o currículo venha escrito no corpo do e-mail. Fazer assim resolveria o problema se não eliminasse completamente a possibilidade de mudar o corpo da letra ou usar recursos como negrito ou itálico. A acentuação também pode ficar alterada. O que fazer afinal? Gutemberg Macedo aconselha o envio do currículo por carta, a menos que o e-mail seja solicitado pela empresa. "Assim, ele chega ao seu destino exatamente como você o preparou", diz. Luciana Sarkozi, da DBM, aconselha fazer tudo ao mesmo tempo. "Para agilizar, mande primeiro o e-mail e avise que está enviando também uma cópia em disquete e papel pelo correio", diz.
24. Atualizar
é preciso
Pelo menos uma vez por ano ou sempre que houver alguma mudança significativa
na sua carreira. Tocou um projeto que deu certo? Coloque no currículo.
Sua equipe cresceu? Coloque também. O telefone mudou? Sua área
fechou um grande negócio? Tudo isso deve ser mencionado. Mesmo que você
não pretenda mudar de emprego, manter o currículo pronto ajuda
a evitar aquelas bobagens que se escrevem por causa da pressa (quem não
deixa o currículo para a última hora?).
25. Faça
um diário profissional
Alguns consultores aconselham as pessoas a ter no arquivo pessoal uma espécie
de diário profissional. As anotações servem para ajudá-lo
a se lembrar de fatos importantes da sua carreira, o que é fundamental
caso seu currículo resulte num convite para entrevista. Essa prática
também facilita a atualização do currículo.
* Colaborou Alessandra Fontana
Retirado da Revista Você S.A.